Depoimento da Claudia mãe do Fernando

Depoimento da Claudia mãe do Fernando

Displaying Claudia e familia.jpgMeu nome é Claudia, sou mãe do Fernando, um lindo menino autista de seis anos e vou contar pela primeira vez a nossa história completa. Desde bem novinha eu tinha dois sonhos: ser médica e ser mãe. Por conta do tempo dedicado à realização do primeiro, o segundo quase não se concretizou. E hoje sei que foi meu forte instinto maternal que guiou a escolha da minha especialidade: ginecologista-obstetra. Casei com meu marido Marcelo aos 35 anos, e foram alguns anos de tentativas até que após tratamento de fertilização in vitro engravidamos.Displaying Claudia e familia.jpg

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Foi tudo tranquilo em toda a gestação e no primeiro ano de vida do Fernando. Ele era um bebê tranquilo e risonho. Mas após um ano comecei a ficar intrigada: eu parecia buscar a atenção dele e não o contrário. A interação acontecia, mas parecia não ser tão espontânea.  E ele parecia ter mais dificuldade para algumas ações que são automáticas, por exemplo: ele não tentava pegar um alimento quando oferecido, tínhamos que colocar em sua boca (só soube bem depois que dificuldades de planejamento motor e coordenação motora são características do autismo). Eu sempre estava checando: eu chego, ele sorri e estende os braços ufa!! Começou a andar, ufa! Mas com 1 ano e meio surgem novas preocupações. As brincadeiras exigem mais interação e ele sempre alegre, adora. Mas por que a diversão parece ser a bola que pula e não eu? Por que vê um bebê no carrinho e olha animado para a rodinha e não para o bebê? Por que corre para a televisão quando ouve um som que o interessa, mas tantas vezes não olha quando o chamamos? Por que ele não fala nada além de mã mã? A hipótese de autismo surge agora com todas as letras e pergunto diretamente para o pediatra: a resposta é negativa. Ufa! Então vamos colocar na escola logo, está faltando companhia e estímulo das outras crianças!

Então com 1 ano e 10 meses colocamos na escola meio período, a babá leva, eu e o Marcelo buscamos no fim do dia. Todos os dias eu, ansiosa, pergunto se foi tudo bem.  E me respondem que sim, adaptação semelhante às demais crianças. Mas diferente das demais, com o tempo ao invés de ir se acostumando, ele foi ficando mais e mais alheio. Até mesmo parecia estar indiferente quando o buscávamos. Com um mês na escola recebo um aviso pela agenda: precisamos marcar uma reunião urgente com os pais, professora e coordenadora. Acreditem, antes mesmo de irmos para a reunião eu tive certeza. Em um ambiente estranho, sem conseguir se comunicar, sem a presença dos pais e da babá e com a comparação com as crianças da mesma idade, os sinais de autismo apareceram claramente.

O meu luto começou no dia da reunião, antes mesmo da confirmação do diagnóstico pelo neuropediatra, que foi um mês depois, aos dois anos. Neste dia, sozinha dentro do carro chorei e chorei…  E entre tantas preocupações e tristeza, confesso que o maior de todos os temores foi egoísta: e a agora, o que eu vou fazer com todo esse meu amor, ele nunca será correspondido? E naquele dia eu daria qualquer coisa para poder prever o futuro…

O luto durou uns dois meses e neste período alguns fatos foram decisivos para todo o resto da história:

  • O apoio total do meu marido. Marcelo, como a maioria dos homens não é de falar muito e diferente da maioria das mulheres também não sai pesquisando tudo sobre autismo rsrs. Mas tem uma percepção incrível e quando fala diz tudo! E durante o meu luto ele me falou: agora chega, ele está sentindo que você está triste e percebendo que você está tratando ele diferente! E quando perguntei: mas o que a gente vai fazer? Uéé, vamos cuidar dele! Se Deus quis assim… Essas palavras me deram paz. O Fernando tem um pai carinhoso, sempre presente e que o ama incondicionalmente.
  • Iniciamos uma readaptação do Fe na escola. Embora não fosse a norma da escola, eles cooperaram imensamente e continuam cooperando até hoje, ao perceberem que modificações seriam sempre necessárias para ajuda-lo. Eu ficava com o Fe, por algumas horas, primeiro brincando junto, depois só observando, depois levando e buscando algumas horas depois. Isso durou duas semanas. E fez toda a diferença. Mesmo sem conseguir ainda falar, ele percebeu, pela minha presença, que era seguro, que era divertido e que ele podia contar com as professoras. Desde então ele adora a escola. E eu tive meu primeiro aprendizado: eu era a ponte entre o Fe e o mundo, ele podia interagir e aprender sim, mesmo demorando mais, exigindo mais esforço e dedicação. Mas precisava ser conduzido com carinho por alguém. Começou por mim e pelo pai, e hoje se estende aos demais familiares, terapeutas, professoras e amigos.
  • A participação nos grupos de apoio à familiares. Primeiro o Amais e agora o TEApoio. Encontrei acolhimento, solidariedade, ajuda, informações, indicações, tudo. E fiz amizades para a vida…

E hoje o Fernando frequenta a escola de manhã e faz terapias à tarde, sempre alegre e risonho. Nossa vida é difícil, temos pouco tempo livre e muitos gastos. Enfrentamos por vezes olhares de estranheza e de desaprovação de pessoas que julgam o Fernando mal-educado e sem limites e atribuem a nós o seu comportamento. Mas ele segue, no seu ritmo, evoluindo sempre. E eu também…

Acredito que sou uma pessoa melhor em vários aspectos, inclusive profissional. Eu aceito melhor a diversidade, sou mais tolerante e compreensiva e menos preconceituosa.

Entendi que precisamos e aprendemos uns com os outros sempre. A união faz a força (os grupos de pais são o melhor exemplo disso).

Percebi que por mais que planejemos e façamos tudo perfeitamente, não temos o controle de tudo. E eu não quero, por nada, saber o que o futuro nos reserva. Quero fazer o melhor hoje.

E quanto ao meu maior temor, lembram? Fernando diz que me ama o tempo todo, não só com palavras, mas também com o olhar, com o sorriso, com beijos e abraços apertados e desengonçados rsrs. Não sei se outro filho nesse mundo corresponderia ao meu amor de forma tão completa, tão verdadeira e tão incondicional…

Claúdia Nakano

Acompanhe as nossas histórias em http://teapoio.com/category/familia-teapoio-nossas-historias

3 comentários em “Depoimento da Claudia mãe do Fernando

  • 03/08/2016 em 19:24
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    Que lindos!!! Claudia, parabens pela sinceridade e obrigada por compartilhar conosco.

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  • 24/03/2017 em 19:02
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    Cláudia, você descreveu minha história, sou enfermeira especialista em urgência e emergência pediátrica, fui mãe com 37 anos, meu sofrimento e dor foi em pensar,”quem cuidará dele quando não tivermos mais aqui”, mas Deus é maravilhoso, hoje vivo o hoje, cada palavrinha é uma festa..
    Acredite, encontro preconceito e olhares estranhos de quem deveria acolher, mas não me abalo, o importante é nossos filhos saber e sentir o quanto são amados por nós.

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  • 29/08/2017 em 11:53
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    Os depoimentos de vocês são a minha realidade hoje, como mãe do Enzo de 4 anos. As vezes sinto medo por ele não ficar o tempo todo comigo, mais entrego a Deus e peço sempre para me ajudar me dar sabedoria, para entender cada reação do Enzo e poder ajudá-lo.

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